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        Zico: o Galinho de Quintino

        Texto por Carlos Ramos
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        Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico, é o maior ídolo da história do Flamengo e quem acompanhou de perto sua carreira garante que se trata de um dos maiores jogadores da história não só do futebol brasileiro. O meia, genial, era também goleador. Teve carreira também na Europa e na Ásia, mas o auge foi mesmo em sua casa, o Maracanã. 

        O Mário Filho, claro, não foi sempre a casa de Zico. O menino franzino começou a jogar em seu bairro, Quintino, também na Zona Norte do Rio de Janeiro. O futebol estava no sangue de sua família, já que seus irmãos também jogavam. Edu chegou a ter carreira sólida no futebol carioca, sendo ídolo do América. 

        Tentando seguir os passos do irmão mais velho, Zico começou a jogar no futsal. Até que um dia, atuando pelo River da região, chamou a atenção de Celso Garcia, radialista na época e que tinha laços de amizade com a família do jovem. O jornalista, então, levou Zico para a Gávea. 

        qEu aprendi a ser perfeccionista com meu pai, que era alfaiate.Ele era um alfaiate que não gostava que o cliente reclamasse da roupa dele. Se ele tivesse que experimentar uma, duas, cinco, dez vezes o terno, a calça ou o paletó, ele experimentava

        "Eu jogava futsal em um campeonato interno de um time, o River. Tinha o campeonato interno aos domingos, de um senhor que alugava quadra lá. Eu jogava em um dos times e foi lá que o Celso Garcia foi me ver, gostou e me levou para fazer teste no Flamengo", recordou Zico, em entrevista para oGol

        Além do futsal, que o deu "velocidade de raciocínio, rapidez de finalização, dribles curtos e o chute de bico", Zico guardou outra lição importante da infância que fez toda a diferença em sua carreira. Zico aprendeu a ser perfeccionista com seu pai, o seu Antunes, na alfaiataria da família. 

        "Meu pai era um alfaiate que não gostava que o cliente reclamasse da roupa dele. Se ele tivesse que experimentar uma, duas, cinco, dez vezes o terno, a calça ou o paletó, ele experimentava. E o auxiliar que trabalhava com ele, falava: 'Mas seu Antunes, já está bom, já está pronto'. Ele falava: 'Não, eu não gosto que os clientes voltem aqui e tragam os ternos para reparar'. Isso se chama perfeccionismo. E eu aprendi com ele. E realmente, todo o período que vivenciei lá, não vi nenhum cliente reclamar do terno que ele fez. Isso era muito legal e levei para o futebol".

        Galinho franzino

        Zico chegou na Gávea com 14 anos. Era pequeno e muito franzino. O Flamengo temia que o menino poderia ter problemas para se adaptar ao futebol profissional. Desde novo, Zico fez tratamento para ganhar massa muscular. Sofreu nos primeiros anos. 

        Só quando se mostrou mais forte, passou a fazer parte do time. A estreia em partidas oficiais aconteceu em 07 de agosto de 1971. Na Ilha do Retiro, o Flamengo perdeu para o Sport, pelo Campeonato Brasileiro. Zico terminou aquele ano com 17 jogos e dois gols. 

        No ano seguinte, Zico não teve tanto espaço com Zagallo. Fez apenas oito jogos oficiais em 1972, já que o Velho Lobo achava que o meia tinha sido lançado de forma precoce. O Galinho acabou ficando de fora da Olimpíada daquele ano por ter entrado pouco em campo. 

        O início dos títulos e dos gols

        Só a partir de 1973 que as coisas passaram a melhorar para Zico. O jovem, apesar de ainda não ser um titular incontestável, foi recebendo mais espaço no time. Conquistou a Taça Guanabara, apesar de não ter sido campeão carioca (o Flu levou a melhor na decisão), e jogou 35 vezes, marcando oito gols. Marcou pela primeira vez em clássicos oficiais (um contra o Vasco, outro contra o Botafogo).

        Mas o ano da virada para Zico foi em 1974. Nesse ano, o Galinho vestiu a primeira vez a camisa 10 rubro-negra, para não largar mais. Naquela época, o calendário começava com o Campeonato Brasileiro e acabava com o Carioca. No Brasileiro, Zico já foi um estouro. 

        Apesar de o campeão ter sido o Vasco, Zico foi eleito o melhor meia e o melhor jogador daquele campeonato. O meia, agora com a 10, passou a se destacar também pelos gols. Chegou a ter sequência de quatro jogos seguidos marcando. Somou 12 gols em 19 jogos. 

        No Carioca, Zico também foi o melhor jogador e o Flamengo foi melhor, ganhando a competição. Em 27 jogos, o meia marcou 19 vezes. Começava, ali, a escrever uma enorme história goleadora e também de títulos com aquela camisa. 

        "1974 foi o ano da efetivação no time titular principalmente por esse treinador que me conhecia da base, o Joubert. O Zagallo saiu no final de 1973 para ir para a seleção para a Copa do Mundo. O Joubert já me colocou de titular no primeiro amistoso e nunca mais perdi a posição. Desandei a fazer gols e aí os outros é que foram brigar pela posição deles. O titular era o Doval, que era ídolo, e ganhei a posição dele, e ele foi jogar de 9, e o Dario acabou sendo reserva, o Dadá Maravilha. Depois o Doval machucou e o Dario ganhou a posição de centroavante, ficou eu e o Dario", recordou Zico. 

        Artilheiro decisivo

        Os números só aumentariam nas temporadas seguintes. Em 1975, apesar de o Fla não ter conquistado títulos, Zico voltou a ser eleito um dos melhores do Brasileiro e se destacou também no Carioca. Foram 40 gols em 56 jogos oficiais. A média no Carioca, por exemplo, foi superior a um gol por partida (30 gols em 29 jogos). 

        Apesar de ter ouvido vaias da torcida rubro-negra por perder pênalti na final da Taça Guanabara, 1976 ficou marcado na carreira de Zico como o ano do primeiro jogo na seleção. Em fevereiro de 1976, o Galinho marcou logo na estreia, contra o Uruguai, e deixou a marca também diante da Argentina, em amistoso seguinte, ambos com vitória por 2 a 1. O Zico artilheiro se mostrava também na seleção. 

        A primeira Copa do Galinho

        Zico não demorou a convencer de que teria de ser presença constante na seleção brasileira. Tanto que acabou entre os escolhidos para jogar a Copa do Mundo de 1978, na Argentina. A tão polêmica e marcante Copa na Argentina. 

        O Brasil tinha, lado a lado, o grande ídolo flamenguista, Zico, e o grande ídolo vascaíno, Roberto Dinamite. O time era brilhante, com Toninho Cerezo, Batista, Dirceu, Rivellino, Reinaldo... A campanha caminhava também bem. 

        Zico foi titular nos dois primeiros jogos da Copa, mas só marcou quando saiu do banco, diante do Peru. Os brasileiros fizeram 3 a 0 nos peruanos, que acabaram levando uma inexplicável goleada da Argentina, que avançou para a final com o placar. Zico e companhia acabaram terminando em terceiro, superando a Itália. O Brasil terminou aquela Copa invicto, mas foi eliminado pela goleada da Argentina sobre o Peru, por 6 a 0, em um dos jogos mais contestados da história das Copas.

        "Algo diferente do normal aconteceu. Perder, todo mundo pode perder. Mas não da maneira como o Peru perdeu. Para nós, foi muito ruim e lamentamos profundamente que tenha acontecido aquilo em um Mundial. Não deve acontecer nunca, mas em um Mundial, principalmente", afirmou o Galinho. 

        Nunca se viu tantos gols

        1979 foi o grande ano de Zico em termos de gols. O meia comandou o título carioca do Fla com incríveis 60 gols em 43 jogos do torneio. Ao todo naquela temporada, foram 65 tentos em 51 jogos oficiais, com média de 1,27 gol/jogo, a melhor da carreira do Galinho. 

        Em 1980, Zico guardou os gols para o Campeonato Brasileiro, somando 21 tentos em 19 partidas. Chegou a marcar quatro contra o Itabaiana e três contra a Desportiva Ferroviária. Na semifinal, foi decisivo marcando os dois da vitória sobre o Coritiba, na ida. 

        O meia conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiro com a camisa rubro-negra diante do Atlético Mineiro, marcando um dos gols daquela decisão. A rivalidade de um timaço do Flamengo contra outra equipe dos sonhos do Atlético seguiria nos anos seguintes. 

        "Eram dois times que formaram a base da seleção de 82 com o Telê. O Telê manteve a base dos dois times. Eram jogos excepcionais, Flamengo x Atlético. Criou-se essa rivalidade porque eram os dois times talvez os melhores do Brasil na época", relembra Zico. 

        No topo do mundo

        Com o título brasileiro de 1980, Zico e Fla foram desfilar sua categoria na Libertadores. O clube da Gávea nunca tinha conquistado o torneio, mas nunca se deve subestimar Zico. Mais uma vez decisivo, o meia carregou aquele time em campanha histórica. 

        Zico erguendo o título do Mundial no Japão ©Getty / Peter Robinson - EMPICS

        O Rubro-Negro já tinha sido campeão carioca quando começou a desafiar adversários pela América. A campanha passou pelo Atlético Mineiro, em confronto histórico, e teve o ápice em batalhas contra os chilenos do Cobreloa. 

        No Maracanã, vitória carioca, com dois gols de Zico. No Chile, muita pancadaria e triunfo chileno. A decisão ficou para um terceiro jogo, a ser disputado no Uruguai. Zico, mais uma vez, foi protagonista. O meia conseguiu sair da violência chilena e marcou os dois gols do título, o segundo de falta, sua marca registrada. O meia foi o artilheiro daquela Libertadores, com 11 gols.

        Ainda em 1981, o campeão da América se tornou campeão do mundo. O Flamengo aplicou um baile na final do Mundial contra o Liverpool, fazendo 3 a 0 e se consagrando como uma das grandes equipes que o futebol brasileiro já viu. Zico garante que foi uma das grandes partidas daquele esquadrão. 

        "Foi uma das grandes partidas, e a gente entrou com esse espírito mesmo. Era nosso último jogo, e estávamos muito desgastados. Viemos de três jogos decisivos contra o Vasco, no Carioca. Aí acabou o jogo, no mesmo dia ou outro, já viajamos. Ficamos em Los Angeles uns dois, três dias, para adaptar um pouco ao fuso. E fomos para lá. Tínhamos disputado seis decisões em um mês, três da Libertadores e três do Carioca, e só faltava aquela. Falamos: 'Vamos com tudo, dar o máximo e tentar decidir isso logo'. Fomos felizes, fizemos 3 a 0 no primeiro tempo e foi só deixar o tempo passar. Se fosse no meio da temporada, aqueles três seriam aumentados no segundo tempo", recordou. 

        Decepção no Sarriá

        Em 1982, Zico, que seria campeão brasileiro com o Fla mais uma vez, queria ter chegado no topo do mundo também com a seleção brasileira. E tinha motivos para sonhar, já que a seleção, comandada por Telê Santana, formou um dos grandes times da história do futebol. 

        As atuações na Copa na Espanha encantavam o mundo. Um futebol bonito, de passes bonitos, dribles e pura mágica. O Brasil passeou com 4 a 1 sobre a Escócia (Zico fez um) e 4 a 0 sobre a Nova Zelândia (dois de Zico). Contra a Argentina, se viu um duelo de dois camisas 10 dos mais talentosos da história. 

        De um lado, Diego Maradona acabou expulso. Do outro, Zico abriu o placar e deu assistência para Serginho Chulapa confirmar a vitória brasileira por 3 a 1. Tudo caminhava para um título, até que apareceu a Itália no caminho dos brasileiros. 

        A Itália do experiente goleiro Dino Zoff. A Itália de Paolo Rossi, que virou carrasco brasileiro. O Brasil que encantou o mundo perdeu para a Itália, por 3 a 2, no Sarriá, e deu adeus ao sonho de título mundial. Leandro, Oscar, Júnior, Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão e companhia deram adeus para aquela Copa genial. 

        "Existem seleções que marcam mesmo não ganhando, como foi o caso da Hungria em 1954, da Holanda em 1974 e foi o caso da nossa. A gente tem quatro jogadores entre os 100 melhores da Fifa: eu, Júnior, Sócrates e Falcão. Normalmente os caras dão essas premiações para quem ganha títulos. Então naquela seleção, quase todo mundo fez sucesso. Mas ganhar ou perder, faz parte. Não me arrependo de nada. A filosofia do nosos treinador era aquela, a gente jogou o futebol que ele queria que a gente jogasse", ressaltou Zico.

        Até logo com título

        Em 1983, Zico, então com 30 anos, conquistou mais uma vez o Brasileiro com o Flamengo. Foi decisivo no mata-mata, marcando contra o Vasco, nas quartas, contra o Atlético Paranaense, na semifinal, e na decisão, diante do Santos. 

        Zico com Maradona em um Napoli x Udinese ©Getty / Alessandro Sabattini

        Aquele título foi uma espécie de "até logo" ao torcedor rubro-negro. Zico deixou o país em seguida para jogar na Udinese, em transação que chocou a muitos na época por Udine não ser lá exatamente o grande centro do futebol italiano. 

        Zico chegou na cidade nos braços do povo, parando a cidade, que o tratava como rei. Dentro de campo, o meia tentou retribuir. Foi o craque que o time precisava e, apesar de não conseguir a missão quase impossível de levantar taças por lá, marcou 19 gols em 24 jogos no primeiro Campeonato Italiano. Na artilharia, ficou abaixo apenas de Michel Platini, da Juventus. 

        "A Udinese tinha um time jovem, mas muito bom. Com jogadores que foram destaque depois em Milan, Napoli, Roma, Juventus e foram para a seleção. Então foi uma experiência boa, gratificante, que valeu a pena vivenciar", garantiu Zico. 

        Na temporada seguinte, porém, começaram os problemas de Zico na Itália. O meia teve problemas de lesões em campo e, fora das quatro linhas, sofria com problemas com o fisco. Acabou decidindo retornar ao Brasil. E retornar para onde?

        Retorno para a Gávea e outra Copa 

        O Flamengo não tinha condição financeira nenhuma de receber Zico, mas foi ousado. Com inédito projeto de marketing, conseguiu, junto a empresas, bancar o retorno de seu maior ídolo, que funcionaria como uma espécie de garoto-propaganda. 

        qEu vejo, hoje, muito meia que mete uma bola e fica parado para o cara da frente resolver. Eu fazia lançamento e ia para a área para ajudar o atacante

        As principais preocupações da diretoria flamenguista, entretanto, acabaram se confirmando. Zico sofreu com problemas físicos e, no primeiro ano de retorno, fez apenas seis partidas oficiais, com três gols. Em 1986, foram apenas quatro partidas. 

        Ainda assim, Zico foi para mais uma Copa do Mundo. Em 1986, voltou a defender a seleção brasileira no México, apesar de ter a consciência que não estava bem fisicamente. E reencontrou Michel Platini, antigo rival de futebol italiano, nas quartas de final daquela Copa, diante da França. 

        O jogo acabou empatado, em 1 a 1. Careca abriu o placar para os brasileiros, mas Platini empatou. Zico teve a chance da vitória em cobrança de pênalti no segundo tempo, mas não aproveitou e o Brasil acabou eliminado em decisões por pênaltis. Foi a despedida do camisa 10 brasileiro de Copas, com certa melancolia. 

        "Paguei por desobedecer o que o meu coração mandava, que era não ir para a Copa do Mundo. Eu estava machucado, tinhja que operar o joelho por lesão de ligamento cruzado, que ia me tirar de campo por seis meses e um ano quase para voltar a jogar. Tinha que fazer isso, mas a direção convenceu que eu era importante para a seleção".

        Últimos anos e idolatria no Japão

        Em 1987, Zico teve lampejos de grandes momentos. Na semifinal do Campeonato Brasileiro, se inspirou no duelo contra o antigo rival, Atlético Mineiro, e marcou na vitória em Belo Horizonte, por 3 a 2. No fim, celebrou o título contra o Internacional. 

        Zico jogou no Fla até 1989. É o maior artilheiro da história do clube e, em jogos oficiais, somou 404 gols em 588 partidas. Na década de 1990, resolveu ter uma experiência no futebol japonês, e ajudou na profissionalização do esporte no país. 

        Se tornou ídolo do Kashima Antlers. Ainda foi capaz de agraciar os torcedores japoneses com lances geniais. Foram quatro temporadas por lá, até que Zico encerrou a carreira em 1994. Virou tão ídolo no Japão que iniciou carreira de técnico ainda no Kashima. 

        "O mais importante foi mostrar para eles que eles tinham que fazer do futebol uma profissão. O futebol profissional exige uma entrega total, diária. Não pode ter um trabalho na empresa e ir treinar. O Japão, naquele momento, não conseguia entender isso. Quando fui para lá, na segunda divisão, o time era praticamente formado por funcionários. Os caras, para jogar, recebiam, digamos, 100 reais. Eles trabalhavam, o treino tinha que ser depois de quatro horas, quando saíam do emprego. E não há possibilidade de ser um profissional dessa forma. Então fui lá para mostrar como ia ser", revelou Zico.

        Anos mais tarde, comandou a seleção japonesa. Pelo país, conquistou a Copa da Ásia em 2004. Em 2006, comandou o Japão na Copa do Mundo, e chegou a enfrentar o Brasil (acabou derrotado por sua pátria). 

        Como técnico, foi ídolo também na Turquia, comandando o título turco do Fenerbahçe no ano do centenário do clube. Levou a equipe também para as quartas da Liga dos Campeões e ao título da Supercopa do país. 

        Trabalhou ainda em outros países da Ásia e da Europa. Voltou ao Kashima para trabalhar já nos bastidores, e é idolatrado sempre onde passa. Zico foi muito mais que o grande ídolo da história do Flamengo. O que, por si só, já não seria pouco... 

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