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        Histórias do Futebol
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        Wolfgang Frank, o mentor de Klopp que ajudou a revolucionar o futebol alemão

        Texto por Eduardo Massa
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        Pare para pensar em grandes técnicos do futebol alemão. Jürgen Klopp certamente foi um dos primeiros a ser lembrado. Já o nome de Wolfgang Frank dificilmente veio a mente. Na realidade, muitos nem sabem quem foi o treinador ou só o conhecem justamente pelo sucesso de seu pupilo. Não fosse por Klopp, talvez Frank não fosse lembrado além da cidade de Mainz. Ainda assim, o ex-técnico começou a ter a sua importância histórica reconhecida antes de sua morte, em 2013, e é hoje considerado um dos treinadores mais influentes da Alemanha.

        Não haveria Klopp se não fosse por Wolfgang Frank, e isso já seria o suficiente para o desconhecido treinador ganhar uma pequena menção especial ao falarmos da história do futebol alemão. Mas sua importância vai além disso. Os seus métodos revolucionários na década de 90 influenciaram toda uma geração de ex-jogadores que passaram por seu comando, entre eles Joachim Löw, campeão mundial em 2014. Frank ajudou a implantar uma série de práticas à frente de seu tempo na Alemanha. Ao mesmo tempo, nunca conseguiu engrenar uma carreira de sucesso em mais alto nível. Um personagem enigmático, que ganhou especial reverência em Mainz.

        "Contei a milhares de jogadores que Wolfgang influenciou toda uma geração de jogadores de futebol e ainda continua a influenciar. Ele é o treinador que mais me influenciou. Foi um ser humano extraordinário", discursou Klopp no enterro do mentor em 2013.

        O sucesso bate na trave para o novo técnico

        A experiência de Wolfgang Frank como jogador foi fundamental para a sequência de sua carreira como técnico. E pode-se dizer que foi um período até mais bem-sucedido. Afinal, Frank foi um atacante da elite, com 10 anos de Bundesliga no currículo, 215 jogos e 89 gols marcados, e passagens por clubes como Borussia Dortmund, Stuttgart, Nurnberg, apesar do maior sucesso ter sido pelo Eintracht Braunschweig. Além disso, chegou a defender o time B da seleção alemã, concebida para preparar atletas com potencial para o time principal. O goleador não foi promovido embora tenha marcado três gols em seis jogos.

        A história na Bundesliga foi importante, mas a passagem pela Holanda, onde defendeu o AZ Alkmaar, foi especialmente inspiradora. A escola de "futebol total" de Rinus Michels seria uma das suas maiores influências, abaixo apenas do famoso Milan de Arrigo Sachi.

        Com estas referências em mente, Frank começa a carreira como técnico no modesto FC Glarus, da Suíça, primeiro como auxiliar e depois promovido ao time principal. O bom trabalho o leva ao FC Aarau, e o sucesso bate na trave pela primeira vez para o treinador, com a derrota na final da Copa da Suíça de 1989/90.

        Depois de passagens sem muito destaque por FC Wettingen e Winterthur, Wolfgang Frank ganha a oportunidade de mostrar o seu trabalho em seu país natal, embora em uma situação conturbada. O tradicional Rot-Weiss Essen, da segunda divisão, o chamou para o lugar de Jürgen Röber, contratado pelo Stuttgart. O RWE tinha um orçamento acima da média no torneio, mas corria o risco de ser rebaixado por irregularidades financeiras, o que acabou por acontecer. Ainda assim, Frank levou o time a uma histórica final da Copa da Alemanha, apenas para bater na trave outra vez: o Werder Bremen de Otto Rehhagel era superior e sagrou-se campeão.

        A revolução no Mainz

        Quando Christian Heidel, diretor executivo voluntário do modesto Mainz, decide convidar Wolfgang Frank para comandar o clube em uma inglória luta contra o rebaixamento, a escolha se deu unicamente por falta de opção. "Ninguém mais queria nos comandar", reconheceu mais tarde o dirigente. Mal sabia ele que a decisão mudaria completamente a história do clube e até do futebol mundial.

        Frank assumiu com a temporada em andamento e teve dificuldade para implementar o seu trabalho. Na parada de inverno, o Mainz seguia na lanterna, com um time limitado tecnicamente até para a segunda divisão, e sem expectativas de melhora. A revista Kicker chegou a publicar que a chance de rebaixamento era de "100%". Foi então que começou a revolução.

        Talvez o desespero tenha ajudado Frank a convencer a diretoria e jogadores que seus métodos poucos convencionais poderiam dar certo. Mas todos achavam que o técnico estava louco quando decidiu simplesmente eliminar o tradicional líbero - praticamente todas as equipes alemãs apostavam na tática - e usar treinos sem bola, considerados no mínimo excêntricos para os jogadores. Tudo para adotar um sistema com uma linha de quatro na zaga e marcação por zona, contra a antiga marcação individual. Os treinos táticos e de posicionamento eram total novidade para a maior parte do elenco e teriam encontrado grande resistência em outro momento. Mas estavam todos dispostos a fazer qualquer coisa para tentar fugir do rebaixamento, dado como certo. Ainda mais revolucionário era a utilização de recursos visuais, com longas sessões de vídeo, que só foi possível implementar por uma parceria com estudantes da universidade local.

        Todas as ideias de Wolfgang Frank podem parecer hoje banais, mas há de se lembrar que na época a troca de informações era muito mais difícil. O conhecimento tático de Frank só foi possível por sua experiência anterior na Holanda e na Suíça, e por sua obsessão por táticas, o levando inclusive a viajar para a Itália para acompanhar os treinos de Arrigo Sachi no Milan - o técnico italiano sequer sabia bem quem era o "louco" alemão que pedia para seguir as atividades do clube rubro-negro. A análise de vídeos então era algo impensável naquele nível, de segunda divisão.

        A segunda divisão alemã simplesmente não estava preparada para o novo Mainz e sua revolução. Ninguém conquistou tantos pontos quanto o time do excêntrico técnico no segundo turno. Mais que isso, foi um momento revelador para aquele que seria o maior pupilo de Frank: Jürgen Klopp, que era um dos líderes em campo da equipe.

        "Foi uma epifania: Eu percebi que nosso sistema de jogo nos fazia vencer times que tinham jogadores melhores. Fazia nossos resultados independerem, até certo ponto, do nosso talento", reconheceu Klopp.

        O momento de Klopp

        Frank parecia destinado a grandes coisas no Mainz, e neste momento o leitor pode se perguntar: o que deu errado? A personalidade do técnico ajuda a compreender tudo. Estudioso, introvertido e sério, Frank tinha problemas para falar a língua dos jogadores, e se conquistou o respeito no Mainz, onde os atletas o amavam, teria problemas em outros trabalhos. Obsessivo e ambicioso, era considerado excêntrico e difícil de lidar por dirigentes. 

        Depois de salvar o time do rebaixamento em sua primeira temporada, Frank continuou fazendo sucesso no Mainz e levou o clube a vice-liderança no meio da temporada seguinte. Em um decisão sem muita explicação, depois de duas derrotas, o técnico abandonou o cargo e assinou com o Áustria Viena. E a equipe entrou em uma espiral de resultados ruins até convencer o treinador a voltar depois de breve passagem pelo futebol austríaco.

        Impaciente com a velocidade lenta da evolução do Mainz, Frank deixaria o clube em definitivo em 2000 para assumir o Duisburg, pensando ter melhores chances de chegar finalmente à Bundesliga. Não durou muito por lá e sua carreira entrou em declínio rápido. Ao mesmo tempo, em Mainz, os substitutos não conseguiam repetir seu sucesso: todos sofreriam com a comparação com Frank.

        Em crise, o Mainz se viu obrigado a tomar uma decisão desesperada. Se não poderiam mais ter Frank e nenhum técnico disponível parecia à altura, por que não apostar em alguém que conhecesse todos os métodos do ex-treinador? Heidel escolheu então o líder do elenco, pegou o telefone e fez a segunda melhor decisão de sua carreira como dirigente, depois de contratar Wolfgang Frank.

        "Quer ver se consegue fazer a coisa funcionar?", perguntou a Klopp. O resto é história.

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        Wolfgang Frank (GER)
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