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Casillas, San Iker

Texto por Vasco Sousa
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Campeão do mundo por clubes e seleções, campeão da Europa por clubes e seleções, campeão em Espanha e Portugal, eleito cinco vezes melhor goleiro do mundo... A carreira de Iker Casillas é a carreira sonhada por qualquer jovem que ambiciona atuar debaixo das traves.

Nascido em Móstoles, na comunidade de Madri, Casillas chegou ao Real Madrid aos 13 anos, e desde cedo o seu potencial chamou a atenção. Percorreu todas as camadas jovens da seleção espanhola, sagrando-se campeão do mundo sub-20 em 1999, em time que tinha Marchena e Xavi, que seriam companheiros de grandes vitórias na seleção principal.

Curiosamente, Casillas foi reserva de Aranzubia durante quase todo o torneio, mas sentiu aí o gosto da vitória – e toda a sua carreira seria repleta de triunfos e títulos.

Jovem, mas já vencedor

Após o título de sub-20, Casillas foi promovido definitivamente ao time principal do Real Madrid (já tinha sido chamado a um jogo em 1997/98, mas sem atuar). A expectativa era que fosse a terceira opção para o gol, depois de Illgner e de Bizzarri. Contudo, uma lesão de Illgner e a irregularidade do goleiro argentino levaram o galês John Toshack a dar a oportunidade ao jovem Iker.

Em setembro de 1999, com 18 anos, estreia num empate em Bilbao em 2 a 2. Poucos imaginavam que começava ali o nascimento de um dos maiores goleiros da história. Fez 47 jogos naquela temporada, tornando-se o mais jovem goleiro titular na final da Champions – que os Merengues venceram em Paris, diante do Valencia (3x0).

Para encerrar uma temporada de sonho, Casillas estreou pela seleção principal da Espanha e foi convocado por Camacho para a Eurocopa de 2000, competição onde não chegou a ser utilizado.

2002, o ano da afirmação definitiva

Em 2000/01, manteve o estatuto de titular no Real Madrid e conquistou o seu primeiro título de campeão espanhol, mas em 2001/02, depois de ter começado a temporada como titular, perdeu o lugar para César Sanchez. Contudo, foi nesta temporada que o futebol de Casillas se firmou definitivamente e o apelido de “San Iker” (por fazer defesas ditas impossíveis) apareceu.

Reserva na final da Champions, contra o Bayer Leverkusen, teve que entrar na segunda parte devido a lesão de César, e foi verdadeiramente decisivo para o título do Real Madrid, com três defesas espetaculares na reta final do jogo. Essa final é, ainda hoje, lembrada pelo gol fantástico de Zidane, mas ninguém se esquece igualmente dos milagres de Casillas.

Ao longo da carreira, Casillas sempre se referiu a sorte como um fator importante no seu sucesso, e 2002 provou um pouco isso. Depois de ter brilhado na final da Champions devido a lesão de um companheiro, Casillas foi titular na Copa do Mundo de 2002 pelo azar do então titular na meta da seleção espanhola, Cañizares (uma lesão invulgar, já que se lesionou no pé com um frasco de perfume), e brilhou no torneio, principalmente no jogo das oitavas de final, contra a República da Irlanda. A partir daí e até 2016, Casillas foi sempre o dono da meta espanhola.

Os galáticos

No Real Madrid continuou a ganhar títulos e prestígio internacional, sendo um dos destaques de uma das equipes mais conhecidas da história, os Galáticos. Todos os anos o Real Madrid contratava um dos melhores jogadores do mundo, chegando a juntar na mesma equipe nomes como Zidane, Ronaldo, Figo, Beckham, Roberto Carlos e Raúl. Se estes emprestavam magia e gols ao futebol do time, na baliza Iker brilhava de forma intensa.

No Real Madrid, apesar de ter conquistado quatro titulos de campeão espanhol entre 2003 e 2012, só voltaria a conquistar a Champions em 2014. Mas, neste período, viveu grandes momentos na seleção espanhola.

O capitão da geração dourada

Depois da desilusão na Eurocopa de 2004 (a Espanha foi eliminada na fase de grupos) e de uma Copa em 2006 que não foi o que se esperava (a Espanha brilhou na fase de grupos mas caiu pela França de Zidane nas oitavas), a Espanha dominou o mundo futebolístico entre 2008 e 2012. Com Aragonés como treinador, e, apesar de um começo difícil - a Espanha perdeu dois dos três primeiros jogos nas Eliminatórias da Eurocopa de 2008 -, a seleção espanhola entrou no torneio longe de ser a favorita.

Apesar da enorme qualidade do plantel (a considerada geração de ouro do futebol espanhol), os espanhóis eram conhecidos pela Fúria, mas por resultados decepcionantes. A história de insucessos do futebol espanhol era longa (apenas um título, em 1964), o que fazia com que muitos não acreditassem na seleção espanhola no torneio.

Contudo, a Espanha da Euro 2008 tornou-se uma das melhores equipes da história. Com um futebol fantástico, onde o tiki-taka se impunha, a Espanha deu espetáculo ao longo da prova, ganhando cinco dos seis jogos realizados. No único jogo que não ganhou no tempo regulamentar, a Espanha agradeceu a Casillas, decisivo no desempate por grandes penalidades contra a Itália.

Na final, em Viena, um gol de Fernando Torres derrotou a Alemanha e a Espanha terminou com um jejum que durava mais de 40 anos. Foi Casillas, o capitão, a erguer o troféu.

Mas o grande objetivo da Espanha era o titulo mundial. A história da Espanha em mundiais era longa mas sem qualquer sucesso – e raramente esteve perto disso. Tudo mudou na África do Sul. Apesar da derrota inicial para a Suíça, a Espanha embalou e conquistou seis triunfos consecutivos, e Casillas foi um dos nomes mais destacados da vitória: não sofreu qualquer nas Eliminatórias e foi determinante nas quartas de final, contra o Paraguai (defendeu um pênalti) e, principalmente, na final.

A defesa de um arremate de Arjen Robben, quando estava 0 a 0 no placar, foi considerado o momento do jogo e a Espanha acabou por derrotar a Holanda na prorrogação, conquistando a Copa pela primeira vez na história. No final do jogo, o capitão Casillas ergueu o troféu. Tinha atingindo o céu futebolístico!

Dois anos depois, em 2012, a Espanha tornou-se a primeira seleção a conquistar a Eurocopa em duas edições consecutivas, novamente com Casillas como figura determinante. Ainda participaria da Copa no Brasil, em 2014, onde não esteve no mesmo nível, e na Eurocopa de 2016, onde foi reserva de David de Gea, realizando o seu último jogo pela seleção em junho de 2016, com 160 partidas no total – chegou a ser recordista até ser passado por Sergio Ramos.

Fim de ciclo em Madri

Em 2012/13, com José Mourinho como treinador do Real Madrid, Casillas perdeu a titularidade para Diego López, numa decisão não compreendida pelos torcedores merengues. Mourinho saiu, chegou Ancelotti, mas Casillas continuou como reserva, atuando apenas na Copa do Rei e na Champions – e conquistou a competição pela terceira vez na carreira, agora como capitão da equipe.

Em 2014/15, volta a assumir a titularidade no clube, mas a aquisição de Navas dava a entender que haveria a aposta no costarriquenho. Assim, no final da temporada, Casillas abandonou o Real Madrid como segundo jogador com mais jogos pelo clube e com 18 títulos conquistados.

Com surpresa, Casillas foi reforço do FC Porto. Realizou três temporadas em Portugal, sagrando-se campeão nacional em 2017/18, em temporada na qual que chegou a perder a titularidade para José Sá, mas recuperou-a a tempo de ser um dos jogadores mais importantes do título dos portistas, que assim terminaram com um jejum de quatro anos sem títulos. 

No primeiro dia de maio de 2019, Casillas sofreu um enfarte num treino do Porto, depois de ter renovado contrato pelo clube. Apesar de ter manifestado vontade de continuar a jogar, em fevereiro de 2020 acabou por anunciar o fim da carreira, para se candidatar a presidente da Federação Espanhola.

Foram 20 anos em alto nível, com um total de 23 títulos como profissional. Com grandes reflexos, ética profissional, perfil de líder e um vencedor nato, Casillas ganhou direito de ser considerado um dos melhores goleiros da história. O coração o traiu quando ainda tinha mais para oferecer ao futebol, mas toda a carreira eternizou San Iker, senhor das defesas milagrosas.

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